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A organização de mentira e a de verdade

A organização de mentira e a de verdade

Cada vez mais, durante nossos trabalhos ou conversas com pequenos e médios empresários, ouço sobre o desejo de organizar a empresa. A maior parte destes profissionais relaciona, porém, a organização com padronizar e deixar tudo arrumado e funcionando perfeitamente. O ponto é que organizar não tem nada a ver com isso: nem com padronizar, nem com burocratizar, muito menos com tornar tudo igual.

A palavra organização é bem conhecida do nosso tempo mas tem uma origem além dele. Não apenas descende de órgão, mas também do grego “com o que se trabalha” ou “instrumento”. O que deixa claro que organização não remete à pessoa em si, mas àquilo com o quê ela faz algo, como música, arte e vida.

Vejo, com isso, uma lição importante na jornada de profissionalizar os negócios. O quão importante pode ser para o empresário entender que organizar é mais do que pensar em padronizar as rotinas de trabalho e atividades. Vai além de definir uma série de políticas de trabalho que, na maioria dos casos, mais atrapalham do que ajudam. Separei, assim, três pontos que me parecem relevantes:

Não existe uma regra de padrão

Se tem uma coisa que o nosso corpo não é, é padronizado. Não existe uma vertente biológica e médica atual que aprovaria dizer que nossos organismos são padronizados e iguais. Pulmões têm tamanhos diferentes, cérebros carregam mais complexidade que todo o universo e as nossas fontes de identificação (digitais, íris, etc) demonstram o quanto podemos ser diferentes em forma e padrão.

Nosso corpo é resultado de uma série de tentativas, erros e acertos. O tempo todo nosso organismo encontra formas e caminhos de cumprir uma função, pouco se importando se existe alguém ou algo igual. O que existe, obviamente, é uma capacidade de autogeração e autorregulação fundamentada em princípios de função e não de forma. Garantindo o cumprimento de papéis e propósitos bem definidos e interligados.

Por que então, nas empresas, achamos que é possível utilizar modelos-padrão vindos de teorias ou outras empresas? Empresários gastam horas e dinheiro investindo em conhecer o método do concorrente e seguir receitas prontas em vez de olhar para dentro e organizar-se de maneira conectada com sua forma e padrão naturais. Sem conhecer a equipe e clientes, acreditam ser possível formatar um jeito que entregue sempre os mesmos resultados e, de preferência, não erre nunca. Triste engano.

Não adianta querer burocratizar

Tem gente que fica a vida toda achando que o próximo passo para sua empresa inclui as tão “sonhadas” políticas. Política de cargos e salários, de remuneração, de reembolso, de crédito, de trabalho etc e etc. Não que isso esteja inadequado, mas é preciso cuidado, pois – paradoxalmente – tenho percebido que quanto mais se aumentam as burocracias, mais se diminui a organização. E, apesar de ver empreendedores achando o contrário, os resultados da burocracia só podem ser percebidos depois, quando departamentos se parecem mais com zonas inimigas, com pessoas territorialistas e sem o mínimo de integração e conexão.

A burocracia alcançada pelo que achamos que é a organização de empresas, separa e impede as pessoas de criarem coletivamente soluções realmente significativas para o cliente. Impedem a autorrealização e, como consequência, a longevidade do negócio.

Existem grandes empresas, burocráticas e cheias de políticas. São grandes, tidas como “de sucesso” e com resultados volumosos. São essas mesmas grandes empresas que, lentas, têm dificuldades de responder às mudanças cada vez mais bruscas do mercado, que geram mais infelicidade do que realização para as pessoas envolvidas com elas e, que deixaram para trás o mito de que não correm o risco de seguir os exemplos da Kodak, Motorola,  Nokia e outras.

Busque a essência e a harmonia

Um bom jeito de encarar a organização é entendê-la como parte da jornada de profissionalizar. Ela não é vazia, muito menos soberana em si mesma. Deve considerar o contexto, a história e a cultura na qual está ou será inserida.  Organização tem a ver com a harmonia entre a clareza de um propósito e a capacidade de realização do negócio, que está nas pessoas. Tem a ver com arte e vida, ou seja, tem técnica e emoção envolvidas. Tem processo e relação harmonizados para fazer algo.

Portanto, existe um organizar de mentira e um de verdade. No primeiro, prevalece o padrão, o medir como todos medem e o fazer como todos fazem. Já o segundo, também considera a verdade, a harmonia e a sua essência. Itens que exigem assumir nossa vulnerabilidade de ser um organismo tão incrível e forte e, ao mesmo tempo, frágil e diferente.

Anderson Siqueira
Idealizador e educador da Consense educação para as relações
Outros artigos, no blog da Consense: http://www.consense.com.br/blog/

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Sobre o autor

Anderson Siqueira
Me inspira a possibilidade de contribuir com o cultivo de ambientes de trabalho mais vivos e conscientes. Abrir caminho para reflexões significativas, que falem de legado, inovação, liderança e rotinas de trabalho são algumas de minhas principais habilidades. Sou mineiro e paulista, tenho 28 anos e um idealista para sempre. Sócio-fundador da Consense Educação para as relações, uma empresa voltada para a criação de soluções em governança, gestão e inovação. Atuo também como educador e facilitador de encontros de aprendizagem e palestras.
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