Qual o principal dilema no ecossistema de startups no Brasil: será que falta capital para investir em negócios inovadores ou falta demonstrar capacidade de entrega de resultados para atrair capital? A nossa proposta para criar startups surge a partir da possibilidade de diagnósticos mais maduros sobre os fatores críticos de sucesso de inovações desenvolvidas em nosso país.

Acreditamos que as estruturas atuais não são suficientes para atender aos desafios enfrentados pelos empreendimentos inovadores. Vamos deixar de lado alguns modismos e tentar limpar os ruídos conceituais e práticos em torno desse tema. Nesse artigo, analisamos a relação entre os atores mais importantes desse cenário – aceleradoras e fundos de venture capital (VC) – e defendemos um novo modelo que supra necessidades críticas para o sucesso de empreendimentos inovadores. Esse modelo é chamado Venture Builder.

Venture Builder
Rodrigo Franco

O que é e para que serve uma Venture Builder

Venture Builders (VB) são organizações que constroem empresas articulando o máximo de seus recursos internos, trazendo a experiência de quem “dirigiu o ônibus e não de quem sentou no banco de trás”1. Ao contrário das incubadoras e das aceleradoras, não existe processo de inscrição ou demoday. A proposta, totalmente mão-na-massa, é de desenvolver tecnologias e ideias de negócios de maneira co-empreendedora, como um sócio, e não simplesmente como investidor ou mentor. 

A Venture Builder, da forma como enxergamos, deve compartilhar de quatro valores: 

  1. comprometimento de capital, principalmente intelectual e trabalho; 
  2. experiências em verticais de negócio (conhecimento de mercado, know-how e expertise operacional); 
  3. um forte desejo de construir algo novo, que crie novos mercados;  
  4. um impulso natural em direção à colaboração, correlacionada com um profundo respeito à virtudes como confiança, amizade e lealdade. 

É nessa proximidade com novos empreendedores e com uma ação de alto impacto para o desenvolvimento de startups, que a Venture Builder se torna uma startup de startups ou, como preferimos dizer, uma startup de empreendimentos inovadores

Somando mais de 20 anos de experiência trabalhando em estágios iniciais de empreendimentos inovadores, nós acreditamos que existem três fatores que justificam a necessidade de Venture Builders, que podem atuar para além, ou de forma complementar, aos times e programas de aceleradoras e das equipes de gestores de fundos de venture capital. 

A) Ajuste do mindset empreendedor

Um dos pontos que mais inibem o desenvolvimento de empreendimentos inovadores é o viés cognitivo de seus empreendedores, principalmente quando eles são pesquisadores, fundadores com perfil mais técnico ou empreendedores de primeira viagem. O viés cognitivo é um tipo de padrão comportamental, ou tendência de pensamento e decisão que surge como mais natural em algum contexto específico. Além do velho mito de que uma ideia genial é o principal fator de sucesso de um negócio (ideia compartilhada por quase todos empreendedores de primeira viagem), há uma tendência desses pesquisadores e fundadores mais técnicos de serem mais apaixonados pela tecnologia ou pelo produto criado do que por resolver o problema de alguém.

O processo de empreender uma startup envolve lógicas contra intuitivas, que passam por decisões em cenários de incerteza, onde a informação está incompleta ou mesmo falta. No entanto, o que mais encontramos é um viés que condiciona uma gestão de projetos e plano de negócios como um processo estruturado e por fases, quando a prática empreendedora é um emaranhado caótico de priorizações e ações no dia a dia. Como dar suporte a uma mudança de pensamento ou fazer um ajuste do mindset empreendedor? Como tirar potenciais empreendedores da inércia de decisão gerado por esse viés cognitivo?

Para lidar com esse desafio, as aceleradoras e venture capital desenvolveram abordagens que permitem operacionalizar ações para a grande quantidade de startups presentes em seus portfólios. As aceleradoras normalmente oferecem uma série de mentorias com especialistas em diferentes verticais de negócio que, baseado em sua própria experiência, apresentam caminhos que conduziriam o negócio ao sucesso. Já as firmas de VC que se dispõe a atuar junto a negócios em estágios iniciais geralmente participam de eventos para formação de empreendedores para “pescar” oportunidades. Em seguida apresentam teses e fórmulas de crescimento e acompanham sua aplicação junto ao empreendedor após um eventual investimento em suas empresas.

As Venture Builders apresentam um novo olhar sobre esse desafio. A tese central está relacionada ao aprendizado do tipo learning by doing, onde se entende que as melhores escolhas são feitas pelos próprios empreendedores e que isso forma um empreendedor mais consistente. Assim, a função da Venture Builder está muito mais para coach do processo do que ser alguém que indica o caminho a seguir. Esse processo é feito através de interações curtas e recorrentes, permitindo uma troca constante e profunda sobre os problemas vivenciados e como superá-los.

B) Reconhecimento do tempo de maturação

Empreendedores e investidores normalmente têm visões bastante diferentes (i) quando analisam risco-retorno no tempo e (ii) em relação aos critérios de avaliação de crescimento-resultado apresentado pelos empreendimentos. Isso fica ainda mais evidente no contexto de alta incerteza dos mercados onde as startups de base tecnológica com alto grau de inovação atuam. 

O processo empreendedor passa por fases não-lineares de validação do produto no mercado (product-market fit2) e do seu modelo de escala, cujo norte gravitacional é puxado principalmente pelas direções que surgem do aprendizado disciplinado. Portanto, a consistência ao longo do tempo, somada à acumulação de conhecimento adquirido durante o processo de validação, podem ser um indicativo de avanço mais importante do que alta tração de usuários e faturamento. Isso faz com que as relações de expectativa-retorno do investidor, normalmente atreladas a uma expectativa de hipercrescimento dentro de uma janela de tempo, gerem frustração e estresse com o empreendedor.

Aceleradoras e firmas de venture capital carregam princípios financeiros de investimento atrelados a um cálculo de risco e expectativa de retorno sobre lógicas temporais bem definidos. Nesse caso, projetos com alto grau de inovação podem não se encaixar e, portanto, a ideia de acelerar (obter um resultado mais rápido dentro de um curto intervalo de tempo), ou mesmo escalar, podem não ser as melhores opções. Além disso, a grande quantidade de startups no portfólio faz com que sua gestão seja mais distante da operação, construindo um cenário com alguns poucos indicadores que informam aos investidores como está a carteira. É fundamental levar em conta que um empreendimento inovador pode apresentar percalços e descobertas durante a sua jornada, com tempo de maturação próprio. 

Empreendimentos inovadoras não são passíveis de aceleração ou de avaliação por meio de poucos indicadores atrelados a faturamento e tempo, por exemplo. Ao contrário, eles necessitam de vetores, métricas e percepções de crescimento que envolvam mais variáveis e um certo grau de análise qualitativa das oportunidades encontradas. A Venture Builder apresenta uma lógica mesclada, com olhar de investimento, mas respeitando esse tempo de maturação próprio. Esse modelo de análise considera elementos de satisfação3 para um número maior de variáveis, indo além da avaliação simples de faturamento e tempo. Assim, para a Venture Builder faz mais sentido acompanhar e atuar sobre as premissas fundamentais de crescimento do negócio no longo prazo. 

C) “Capital suor”4 para mitigação de riscos

Atores do investimento de risco, tanto fundos de VC como aceleradoras, apresentam estruturas e teses diferentes para controlar a relação risco-retorno de seus portfólios. 

Os fundos de VC mitigam riscos investindo em empresas que apresentam um grau de maturidade, ou validação mais consolidado, colocando boa parte dos seus recursos no processo de busca e seleção dessas possíveis investidas. Além disso, sabendo que em negócios de risco muitas empresas tendem a fracassar gerando nenhum retorno, enquanto algumas poucas gerarão retorno muito acima do esperado, a diversificação e a grande quantidade de empresas são regras básicas para equilibrar o portfólio. As aceleradoras, por investirem em negócios com pouca maturidade ou em estágios bem iniciais, acabam estruturando um processo de diversificação ainda maior, com uma grande quantidade de empresas, apostando em um processo estatístico de seleção natural. Nessa lógica, uma em cada 100 gerariam o retorno esperado para compensar os investimentos.

Já as Venture Builders têm como foco o suporte a seus empreendedores de maneira personalizada e com Capital suor, ajudando principalmente na cogestão, mas principalmente co-empreendendo a startup. 

Nesse ponto chegamos a uma questão fundamental: considerando a necessidade de diversificar a carteira de investimento para diminuir o risco e que essa estratégia diminui a atuação do Capital suor em cada startup, isso não acaba resultando em um aumento do risco em contrapartida? O grande desafio das Venture Builders é equilibrar a quantidade de empresas no portfólio e a energia de esforço necessária para injetar empreendedorismo e gestão na iniciativa. Isso tem como resultado a mitigação do risco de fato do projeto e não uma mitigação de risco via neutralização dos ganhos a partir de um grande portfólio. 

QUADRO RESUMO


Venture CapitalAceleradoraVenture Builder
Ajuste do mindset empreendedorAtuação distante, menos frequente e com essência direcionadora Atuação por meio de mentorias frequentes e de essência influenciadoraAtuação como coach, com interações recorrentes e de essência questionadora
Reconhecimento do tempo de maturaçãoMétricas de sucesso específicas e com baixa variância. O faturamento dentro uma janela de tempo, por exemplo, define o sucesso.Mesma lógica que o venture capital.Abertura para indicadores mais qualitativos e tempo de maturação mais elástico.
Capital suor para mitigação de riscosMitigação de risco através da diversificação e alto rigor na tese.Mitigação de risco através da grande diversificação e retorno estatístico no tempo.Mitigação de risco através da dedicação na cogestão em poucas apostas de negócio.

Mas, e daí? O que é necessário fazer? 

Como argumentamos anteriormente, a Venture Builder apresenta aspectos diferentes dos modelos das aceleradoras e venture capitalists que nos parecem essenciais para a fermentação de mais empreendimentos inovadores no Brasil. É preciso valorizar e abrir um espaço para que o modelo ganhe relevância e influência no cenário brasileiro. Assim, queremos chamar atenção tanto de investidores quanto de novos empreendedores (ou potenciais empreendedores) para essa forma diferente de suporte aos negócios inovadores.

A) Aos investidores

Precisamos mover capital para investir em Venture Builders, com equipe experiente e especializada para dar suporte principalmente nos estágios iniciais de validação de uma inovação para que, com isso, as chances de sobrevivência e crescimento desses negócios aumentem. 

Esse novo formato de apoio a startups já vem atraindo diversos empreendedores seriais e associações de investidores anjo. Eles estão enxergando potencial nesse modelo que se propõe a ser um elemento gerador de empreendimentos inovadores. A Venture Builder representa um investimento (tanto financeiro como de esforço) de menor risco em relação ao investimento direto em startups em estágio inicial, tanto pela especialização da VB nesta fase, quanto pela diversificação de iniciativas em seu portfólio – dentro dos limites aceitáveis de empresas que possam ser co-empreendidas. As VBs, portanto, se apresentam como um investimento em uma “plataforma de desenvolvimento de novas oportunidades”, ou uma tese de investimento em um portfólio enxuto com fortes convicções de seu potencial de impacto. 

B) Aos novos/potenciais empreendedores 

Para os empreendedores, a Venture Builder pode ser o parceiro ideal para co-empreender um projeto que, sabemos, será mais longo e desafiador que um ser humano de bom senso pode prever. Venture Builders podem representar um sócio de longo prazo – para muito além dos demodays – sem a pressão de tempo pré-determinado para se desfazer da sociedade. Considere que o Venture Builder não será um sócio de negócios, administrativo ou que “trará dinheiro”, mas um co-empreendedor, preocupado em desenvolver nos fundadores a musculatura empreendedora necessária para levar a inovação ao mercado. Se existe o desejo de levar conhecimento e soluções inovadoras ao mercado, mas ainda restam dúvidas e uma certa insegurança com relação ao processo empreendedor, a Venture Builder desponta como uma poderosa plataforma de lançamento.

O potencial brasileiro para o empreendimento de negócios inovadores é latente. Nossa cultura já assimilou que startups conseguem percorrer este caminho de forma mais eficiente, mas que ainda restam alguns gaps que impedem esse fluxo de ocorrer mais naturalmente. O modelo de Venture Builder representa uma solução para percorrer os estágios iniciais do processo de inovação de forma mais eficaz.


Sobre os autores 

Diogo Dutra, fundador e executivo da Caos Focado, Venture Builder com viés para negócios inovadores. Atualmente desenvolve um portfólio de quatro startups: Nave à Vela (Edtech), Cromai (Agtech), Health.Inn (Healthtech) e Bio.inn (Biotech). Idealizador e coordenador principal do programa de educação empreendedora Academic Working Capital, do Instituto TIM, desde o seu nascimento, em 2015, até 2018. 

Gustavo Mamão, fundador da Flourish [Negócios com Propósito], Venture Builder de negócios inovadores de impacto. Atuou como sócio do Instituto Inovação, aceleradora fundada em 2002, que provavelmente seria definida hoje como uma Venture Builder. Autor do livro Inovação na Raiz, que retrata o empreendedorismo inovador no Brasil a partir do case de sucesso da Rizoflora, empresa spin-off acadêmica.


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Notas: 

1. Diallo, A. (2015, Janeiro 18). How ‘venture builders’ are changing the startup model. Disponível em: <https://venturebeat.com/2015/01/18/how-venture-builders-are-changing-the-startup-model/>. Acesso em: 09 fev. 2019.

2. Marc Andreessen, empreendedor e investidor Americano, definiu o termo da seguinte forma: “O product-market fit significa atender um bom mercado com um produto que pode satisfazer esse mercado”.

3. Dentro dos estudos de otimização em engenharia, os problemas complexos (problemas do mundo real) eventualmente necessitam de abordagens a partir de métodos heurísticos (que utilizam critérios normalmente trazidos pela experiência de um expert) para encontrar uma solução “aceitável” (ou satisfatória) ao invés da utilização de métodos analíticos/numéricos que buscam a solução ótima. A opção pela abordagem heurística acontece porque a busca pela solução ótima em problemas complexos pode demandar um gasto exagerado de tempo e esforço. A analogia com o método de análise do investimento em uma Venture Builder se refere à sua percepção mais heurística do negócio, onde se buscam resultados satisfatórios (dentro de critérios pré-estabelecidos), mas não necessariamente ótimos.

4. Tradução livre do termo sweat equity.