Encontro de trajetórias incomuns

Na Engenharia Mecatrônica da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo encontraram-se dois alunos com trajetórias incomuns.

Diogo Dutra, que decidiu ser inventor aos 8 anos de idade, tinha acabado de voltar do intercâmbio na École des Mines de Paris se especializando em Engineering Design com aprofundamento na Teoria C-K de Design proposta por Armand Hatchuel, tema que depois embasou seu mestrado na USP, com enfoque em Service Engineering Design.

Miguel Chaves, via Poli Cidadã, passou um mês imerso na comunidade indígena Canuanã no interior Mato Grosso do Sul onde identificou uma dor de armazenamento de grãos, inspirando um projeto de engenharia de armazém sustentável que foi efetivamente implantado – ou seja, aplicando com profundidade o que depois seria popularizado como design thinking – inovação a partir do entendimento do usuário direto da fonte, “out of the building”, tema que inspirou seu mestrado em inovação no ITA anos depois.

Fez intercâmbio entre 2007 e 2008 no D-Lab do MIT, laboratório que desenvolve tecnologias sociais, voltou e empreendeu em um negócio de aquecimento solar de baixo custo para comunidades, recebeu investimento que não chegou a ser aplicado por decisão dos sócios de trilhar outros rumos pela incompatibilidade de visões de negócio.

Foi no encontro do Diogo com o Miguel que esta compatibilidade total de visão sobre inovação foi atingida, gerando inicialmente um despretensioso blog sobre inovação com um nome provocativo: CAOS Focado. Em 2011, aplicando todo o aprendizado de inovação na prática, foram vencendores do Battle of Concepts, iniciativa de Open Innovation da Tecnisa, dando origem à empresa CAOS Focado antes mesmo de se formarem na faculdade, uma consultoria de inovação baseada em Engineering Design. A visão: ser a IDEO brasileira.

A exposição trazida por terem sido vencedores do Battle of Concepts proporcionou o encontro com outra trajetória incomum. Lucas Torres, engenheiro mecatrônico da USP São Carlos, ao ver a Caos Focado no site do Battle of Concepts, convidou Diogo e Miguel para uma palestra sobre inovação neste mesmo ano de 2011, no contexto do Clube de Empreendedorismo São Carlos, organização que ele mesmo co-fundou para auxiliar a criação de empresas tecnológicas de alto impacto, a partir da universidade. Lucas se manteve conectado à inovação e empreendedorismo trabalhando na Agência USP de Inovação, Endeavor, (coincidentemente no) D-Lab do MIT, Hivelab Escola de Inovação em Serviços, e Inventta consultoria de inovação até que seu caminho cruzou novamente o do CAOS Focado, desta vez em definitivo, tornando-se sócio em 2014.

A frustração e vontade de fazer diferente

Entre 2011 e 2014 já haviam sido realizados diversos projetos de inovação para empresas, instituições e universidades, incluindo a criação da área de inovação em um grande banco. A esta altura já eram experts em co-criação de novos conceitos de inovação a partir da visão do usuário no centro, capturada diretamente da fonte.

À medida que a lógica de risco de investimento das organizações incompatíveis com graus de inovação maiores matavam conceitos atrás de conceitos promissores, e à medida em que viam talentos empreendedores das universidades inspirados a inovar, mas não tendo amparo e seguirem o caminho tradicional em multinacionais, consultorias e bancos, nascia uma frustração e inquietude nos sócios do CAOS Focado, cujo propósito de vida sempre foi ver a inovação gerando efetivo impacto econômico e social em larga escala.

Foi então que os sócios buscaram testar uma abordagem de inovação diferente dos métodos que tinham aplicado até então: criar eles mesmos novas empresas usando o conhecimento adquirido e assim gerar inovação por meio de um negócio, utilizando o resultado da área de consultoria de inovação como fonte de financiamento inicial.

Nesse ínterim, boa parte dos sócios e funcionários da empresa trabalharam com os conceitos e metodologias de empreendedorismo de diversos autores como Steve Blank, Paul Graham, Eirc Ries e Saras Sarasvathy. Além disso, também tiveram contato com aceleração de empresas nascentes de base tecnológica de onde muitas hipóteses conceituais foram aplicadas.

A primeira venture foi a PODD, projeto que não chegou a ser consolidado em pessoa jurídica e foi abandonado por não retornar os resultados esperados; usando o conceito de venture builder, não se realizou um spin-off. A PODD era uma plataforma digital de correção automática de provas semi-estruturadas que usava visão computacional.

O segundo projeto foi uma rápida tentativa de abordar o mercado esportivo com uma solução tecnológica. A iniciativa foi rapidamente abandonada em vista de uma oportunidade surgida com um dos clientes da então consultoria: a prestação de serviço na área de educação para um grande colégio na cidade de São Paulo. Este quarto projeto se tornou uma spin-off, se constituiu em empresa sob uma nova marca, Nave à Vela, com Lucas Torres como fundador e CEO e o Caos Focado detendo 100% do seu capital na figura de seus sócios. O Nave à Vela implementa no ensino básico um sistema curricular de atividades de engenharia, design e empreendedorismo, através de espaços makers, acelerando a transformação do setor para aprendizagem baseada em projetos e em competências. Para mais detalhes sobre a gênesis do Nave à Vela você pode conferir esta reportagem do Projeto Draft.

equipe Nave à Vela

Em paralelo, a CAOS Focado tornou-se de 2015 a 2019 a consultoria responsável pelo conteúdo e gestão do programa Academic Working Capital (AWC), programa do Instituto TIM, direcionado para estudantes de ciências exatas que queiram transformar seus trabalhos de conclusão do curso em negócios inovadores. Ao longo de um ano, os universitários são acompanhados por tutores e recebem apoio financeiro para montar o protótipo e dar os primeiros passos em seu negócio. Neste período, tomamos contato com os desafios de mais de 200 startups e como contornar muitos deles – 30 startups se tornaram negócios reais e demos origem à metodologia de Empreendedorismo Científico para empresas de base tecnológica chamada Shell4Startups. Esta história se cruzará com a nossa novamente com a do CAOS Focado como contaremos em breve).

Toda esta experiência serviu de aprendizado para chegarmos no método CAOS Focado de criação de empresas de base tecnológica e dar origem ao que hoje chamamos de CAOS Focado Ventures.

A gênesis da CAOS Focado Ventures

Foi a partir de 2016 que se consolidou a tese da Caos Focado Ventures como a conhecemos hoje. Venture Builders (VB) são organizações que constroem empresas articulando o máximo de seus recursos internos, trazendo a experiência de quem “dirigiu o ônibus e não de quem sentou no banco de trás”. Ao contrário das incubadoras e das aceleradoras, não existe processo de inscrição ou demoday. A proposta, totalmente mão-na-massa, é de desenvolver tecnologias e ideias de negócios de maneira co-empreendedora, como um sócio, e não simplesmente como investidor ou mentor. Como analogia, costumamos nos identificar como “Private Equity extremely early stage“, alocando nas ventures gestores excepcionais que já passaram pelas dores do zero ao exit.

Em específico, começamos esta jornada com PESSOAS e não IDEIAS. Selecionamos um empreendedor de altíssima excelência técnica, combinada a carisma e ética (tipicamente oriundo de universidades de ponta), descobrimos com ela ou ele oportunidades de mercado a partir da tecnologia de fronteira de domínio e assumimos o papel de co-fundador Business Developer / CEO-interino até achar product-market fit, além de suportar este início com nossa equipe interna de produto, comercial, gente e gestão e administrativo-financeiro. Seguimos como executivos do negócio durante as fases de tração e estrutura da empresa até se atingir uma operação sustentável e pronta para saída estratégica.

A primeira empresa que nasceu 100% desta tese foi a Cromai em 2016. O primeiro founder expert técnico sócio do CAOS Focado foi Guilherme Castro, graduado em Engenharia Mecatrônica pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, Master of Science em Mechatronik pela Universidade de Darmstadt, na Alemanha e doutor em engenharia da computação pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, com parte da pesquisa realizada na Yokohama National University, no Japão, onde desenvolveu um modelo de rede neural bioinspirada para o controle do trânsito urbano, especializando-se no tema de inteligência artificial.

O processo de criação de uma startup no CAOS Focado não é trivial e está aberto a explorações ousadas. Aplicando todas as técnicas de inovação baseada em Design e Effectuation desenvolvidas ao longo dos anos, exploramos juntos oportunidades de mercado para aplicação do expertise em inteligência artificial nos mais diferentes segmentos. Chegamos, após dezenas de conversas de descoberta, a dois potenciais clientes dispostos a pagar pelos conceitos concebidos: um na área de cross fit e outro na área de agricultura de precisão. Tendo em vista o forte vínculo do Guilherme com o setor do agronegócio, por ter muitos familiares agrônomos (pais, avós e bisavô) e ter crescido nesse meio, a escolha do caminho foi direcionada. Acreditamos que o fator paixão e conexão de história de vida do empreendedor com o empreendimento faz toda a diferença para o seu sucesso.

Realizações das CAOS Focado Ventures

A Cromai, atualmente oferece uma aplicação de visão computacional para diagnósticos de agricultura de precisão. A startup tem uma carteira crescente de clientes como a multinacional Stoller, um time de 40 pessoas e ganhou prêmios e reconhecimento nacional e internacional como o Google Computer Vision, publicações em parceria com a Embrapa, Pulse Hub da Raízen e o AgroExponencial da SLC Agrícola. Captou investimento anjo em 2017, rodada seed em 2019, atualmente a empresa está em fase final de captação de investimento series A para alçar vôos ainda maiores.

Em 2018 e 2019, mais duas empresas fundadas dentro deste método, desta vez com empreendedoras mulheres. Isabela Modesto, Engenheira Mecatrônica Poli USP, especializada em Computação pela École Centrale de Lyon (França), com mais de 9 anos de experiência com desenvolvimento de software incluindo em empresas como a Diebold, se tornou sócia do CAOS Focado dando origem à Onyma, healthtech com foco em gestão de saúde corporativa baseada em inteligência de dados, tendo como porta de entrada nas empresas a digitalização e ultra-eficiência dos processos de saúde ocupacional.

Esta tese é fruto de meses de experimentação de conceitos de negócios de digitalização na saúde, desde tratamentos apoiados por realidade virtual a sistemas de apoio para planos de saúde complementar, aprendendo com o mercado qual a melhor oportunidade para garantir engajamento dos pacientes e retorno de investimento em saúde. A empresa captou com sucesso R$400k de investidores anjo incluindo profissionais de referência como Gustavo Vitti (Chief People Officer do iFood), Raphael Bozza (Diretor de People Operations na Nubank) e Ricardo di Lazzaro, empreendedor da Genera, startup de saúde vendida para a Dasa. Um dos seus clientes é uma startup unicórnio, e está atualmente em rodada de captação seed.

Em outra oportunidade, Janaína Dernowsek, graduada, mestre, doutora e pós-doc em biotecnologia, fundadora da Bioedtech e uma das principais referências do país em bioimpressão 3D, tornou-se sócia do CAOS Focado dando origem à Quantis, startup de biotecnologia com a tese de biofabricação de insumos biológicos de alta performance para co-desenvolvimento de produtos finais diferenciados em diversos segmentos industriais, iniciando pelo colágeno ultra-puro bioidêntico ao humano para aplicações de teste de eficácia de cosméticos e de produtos injetáveis para medicina regenerativa estética e articular.

A Quantis foi selecionada no programa do Biotechtown, hub de inovação em biotecnologia e ciências da vida, conquistando acesso a uma das mais avançadas infraestruturas de laboratório e manufatura de biotecnologia do país. Também já recebeu investimento anjo, foi aprovada pela FAPESP no Programa de Pesquisa Inovativa para Pequena Empresa (PIPE) e no processo seletivo da Eretz.bio, incubadora vinculada ao Hospital Albert Einstein. Estas são evidências de que o conceito criado pela startup possui enorme potencial.

Em 2020, a E-lastic, startup de IoT que permite a avaliação de força muscular baseada em dados, cujo fundador foi um dos selecionados para o Academic Working Capital (Programa do Instituo TIM) recebendo mentoria direta do Diogo Dutra desde seu início (conectando a trajetória do Caos Focado consultoria com a da venture builder), passou também a compor o portfólio da Venture Builder. João Macedo, CEO da E-lastic, é empreendedor desde criança quando auxiliava no comércio dos pais, apaixonado por criar ferramentas de automação durante toda a graduação em Engenharia Elétrica com ênfase em eletrônica na Universidade de Brasília e líder de equipes de tecnologia desde que entrou na Apuama (equipe de Fórmula SAE da UnB).

Antes de compor o portfólio, a E-lastic conseguiu a façanha de ser uma healthtech de hardware, software e aplicativo próprios, desenvolvendo a partir da pesquisa acadêmica uma solução completa de IoT gerando valor para mais de 700 clientes em 7 países (Brasil, Alemanha, Portugal, Espanha, Irlanda, Argentina e Peru) e clientes como Hospital Sírio Libanês, Arcelor Mittal, Rede Sarah de Hospitais de Reabilitação, além dos clubes esportivos Boca Juniors, Grêmio, Internacional, Vasco, Amoré, Atl. Cazajeiras, Caxias, Clube Atlético Patrocinense, Confiança Cruzeiro, Esportivo, São José, Juventude, Novo Hamburgo, Igrejinha Ponte Preta, Toledo Esporte Clube, times de futsal e vôlei do Joinville, Sesc-RJ e Flamengo.

A partir do momento em que passamos a atuar como Business Developers e estruturadores da gestão de produto, comercial, gente e gestão e administrativo-financeiro na E-lastic, a startup ampliou seu MRR (monthly recurrent revenue) em mais de 50%, foi finalista do Prêmio Empreenda Saúde e conquistou R$600k de investimento anjo e venture debt, passando de um time de 8 para 20 pessoas em 6 meses. Ultrapassou recentemente a marca de 200 mil avaliações de força muscular feitas com sua solução.

Começamos este relato pela Cromai. Mas vamos retornar ao primeiro caso, o do Nave à Vela. Desde a primeira venture, aplicou-se diligentemente o método de empreendedorismo científico. A CAOS Focado Ventures conseguiu transformar uma iniciativa voltada para venda B2C para pais de cursos extracurriculares dependente de altos custos de distribuição, engajamento e adimplência, em um modelo escalável B2B2C para escolas. Ao criar um modelo em que as escolas inserem em seu currículo obrigatório de forma que seus próprios professores pudessem implantá-lo, passamos a dobrar faturamento ano a ano. E chamando a atenção da ARCO Educação, conglomerado listado na Nasdaq que concentra marcas de soluções educacionais com imensa capilaridade e excelência operacional.

A ARCO adquiriu o Nave à Vela em um deal de M&A multimilionário em 2019 tendo concluído o período de earn-out da compra em fevereiro de 2021, quando também atingimos mais de 50 mil alunos atendidos em 150 escolas comprovando o valor e impacto da solução para o segmento. Com isso, o CAOS Focado teve um retorno estimado de mais de 30 vezes sobre o capital próprio investido. Neste artigo (link) apresentamos mais detalhes de como a Caos Focado fez esta história acontecer.

Os próximos 10 anos da CAOS Focado

Em meio a um cenário de decrescente investimento em inovação e pesquisa científica pelo poder público, a CAOS Focado entende ser crucial seu papel na originação de empresas de base tecnológica que criam novos mercados gerando impacto econômico e social de larga escala, alavancando talentos técnicos negligenciados nas universidades de ponta do Brasil, apresentando uma opção alternativa às carreiras tradicionais e/ou saída para fora do país.

Ao mesmo tempo, o formato mais popular atualmente de financiamento de startups no país, de ‘go unicorn or go home’, deixa excelentes oportunidades de inovação morrerem, não prioriza inovações disruptivas e não é inclusivo para founders. Como drive**,** queremos criar outras possibilidades para o ecossistema brasileiro, iguais ou melhores em retorno financeiro e mais eficientes em geração de valor para a sociedade e founders. Veja neste artigo mais detalhes sobre o por que de acreditarmos nesta tese.

Além do objetivo de dar origem a mais duas empresas de base tecnológica em 2021, o Caos Focado pretende este ano oferecer aos investidores brasileiros a oportunidade de participar conosco deste ciclo virtuoso de geração de valor a partir de inovação raiz, motivados por outros exemplos de sucesso no mundo de teses similares como E-founders, HighAlpha, Science e Mike Speiser da Sutter Hill Ventures.

Nossa visão de longo prazo é ter criado 10 startups com operações sustentáveis prontas para saída estratégica em 04 verticais diferentes ao final dos próximos 10 anos. Se você quer fazer parte desta história, entre em contato e quem sabe teremos mais um encontro frutífero nesta saga pela inovação.

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